• OUT
  • 11
  • 2014
Vanessa Feltrin | A Tribuna

Em menos de meio minuto, eles já estavam a postos. Perninhas e bracinhos em sintonia. Um exército com roupinhas azuis e brancas. Bastou tocar o sinal que os liberava para o recreio para que os pequenos estudantes da Escola Municipal Jorge da Cunha Carneiro se aglomerassem em filas irregulares. Nem o calor do inverno desregulado da terça-feira que convidava o grupo para a descontração longe dos livros conseguiu arrancar as crianças do pátio central da instituição do bairro Próspera,em Criciúma.
Elas queriam se exercitar fisicamente. Mas não com as tradicionais brincadeiras infantis. O escorregador e os balanços não
ganharam companhia naquela tarde. A pausa para uma conversa com os coleguinhas das outras classes ficou para o dia
seguinte. O lanche foi esquecido. E a menina com o pirulito rosado na boca logo tratou, sem hesitar, de entregar o doce para a professora que passava ali perto. Por pouco a garota não o coloca no bolso. Deixar limpo o uniforme não valia mais que a imensa brincadeira que começaria em poucos segundos.


No pátio, nada de equipamentos sofisticados. Um aparelho de som, com uma música em outro idioma dava a deixa. Sons de campainhas marcavam a hora que cada grupinho deveria correr até a outra ponta da quadra, limitada por cones vermelhos. E só. Ali, a simplicidade garantia bons resultados à iniciativa.


Parece uma brincadeira,
mas é um estudo sério


Mas, o que para os alunos de seis a dez anos parecia uma festa, nada mais era que o andamento de um projeto elaborado por Loraine Storch Meyer da Silva, pediatra e professora de Medicina da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).
Pioneiro no País, ele traça o perfil das crianças criciumenses obesas e com sobrepeso e oferece a elas atividades extracurriculares monitoradas por profissionais ligados à educação física e nutrição. Hoje, o projeto está na fase de avaliação dos alunos. No próximo dia 25, as atividades iniciam para valer.


O resultado obtido com o grupo de participantes será comparado com as pesquisas efetuadas com crianças que não
participaram tão diretamente do projeto, mas que possuem as mesmas características dos meninos e meninas selecionados. Ou seja, na tarde quente de terça-feira até quem não tinha nem de perto o perfil para participar da pesquisa acabou se divertindo; e muito. Todos, independente de estarem com o peso acima do normal, não resistiram em participar da imensa brincadeira.


Gargalhadas de entusiasmo já começam a se propagar pelos corredores da escola com quase meio século de existência. A tendência é de que elas deverão ser ouvidas ainda mais altas no final do mês. Claro, com mais saúde e disposição. Afinal, a simples brincadeira está parecendo muito mais doce que o pirulito rosao da menininha.

Primeira fase do estudo envolveu 1,5 mil alunos no município - 21% estavam acima do peso ideal

Criciúma é a primeira cidade do País a receber um projeto ligado a crianças, com idades entre seis e dez anos obesas e com sobrepeso. Intitulado Impacto da intervenção no sobrepeso e na obesidade em crianças de seis a dez anos de escolas da região urbana de Criciúma, foi iniciado em março deste ano com um levantamento para apurar a prevalência dos casos na cidade.


Hoje, a obesidade já é tratada como uma epidemia. Ela afeta 10% da população infantil brasileira, o que significa que uma em cada três crianças, com idades entre sete e 12 anos, está acima do peso. Mil quinhentas e vinte crianças de escolas públicas e particulares de Criciúma participaram da primeira fase do projeto da pediatra. O levantamento primário, encerrado no final do semestre, mostrou que 21% dos participantes iniciais estavam acima ou muito acima do peso. A escola que mais apresentou incidência dos casos foi a Jorge da Cunha Carneiro - que atende alunos de 1ª a 4ª séries.


Dos 1,5 mil estudantes que participaram da primeira fase da pesquisa, 21% estavam aptos a seguir para a próxima fase - 26% deles eram alunos da escola da Próspera. Além da instituição que participa do projeto com 67 alunos, outras duas escolas da cidade (a estadual Coelho Neto e a municipal Amaro João Batista) também foram incluídas na pesquisa. No final do próximo ano, os dados coletados com os 140 meninos e meninas participantes diretos serão comparados com os de outros 140 alunos com as mesmas características, mas que ficaram de fora da segunda e demais fases do projeto.
No dia 25 de setembro, a nova fase de trabalhos inicia. Duas vezes por semana, fora do horário escolar, os 140 alunos serão
submetidos a atividades físicas e de educação nutricional. Os dois programas serão realizados juntos - serão cinco os testes de aptidão física. Um questionário também faz parte da avaliação física. Ele deverá ser respondido em três dias a ser escolhidos, e o conteúdo a ser explorado engloba tudo que os alunos fazem quando estão em casa antes de irem e depois de retornarem das escolas. Já a avaliação nutricional consiste de um exame antropométrico da massa corporal de cada um. Novamente, um questionário será aplicado com a criança, para verificar como e do que ela se alimenta. Todo o trabalho está sendo efetuado com o consentimento dos pais.

Projeto vai daqui para PR e SP
Vanessa Feltrin | da Redação

M esmo sem estar finalizado, o projeto de doutorado da pediatra e professora da Unesc Loraine Storch Meyer da Silva já é
considerado um sucesso. Tanto que de Criciúma ele será levado para aplicação em escolas de Curitiba e São Paulo,
posteriormente. Realizado em convênio com o International Life Science Institute (Ilsi) e o Cooper Institute, ambos com sede nos Estados Unidos, além da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o projeto é sustentado financeiramente e
tecnicamente com ajuda internacional.

Carla Botelho Sottovia, diretora do Departamento de Personal Trainer do Cooper Institute e doutora em Fisiologia do Esporte, é carioca de nascimento, mas há 23 anos mora em Dallas, no Texas, onde também faz parte do quadro de professores do instituto. Ela conta que o Ilsi se prontificou em patrocinar financeiramente o projeto de Loraine e que o Cooper, um dos institutos de renome no mundo, fica responsável por liberar a assistência técnica. Kenneth Cooper, criador da aeróbica, é pioneiro da medicina preventiva e ajudou mi- lhões de pessoas a controlar o colesterol e a hipertensão arterial. O curso de Nutrição da Unesc e profissionais de Criciúma ligados à área da Educação Física também participam do projeto.


Ao sete anos, problemas de coração e pressão alta típicos dos adultos

Ela só tem sete aninhos. Está na 2ª série da Escola Municipal Jorge da Cunha Carneiro e além das tarefas diárias como
estudante já carrega nos ombros a responsabilidade que antes pertencia só ao mundo dos adultos. Quando o assunto é pressão alta e problemas no coração, a pequena Ângela (nome fictício) já consegue dar uma aula. Sabe dos sintomas. Sabe porque os sente. Filha caçula de três irmãos, a menina começou o tratamento médico não muito tempo. Mas, um dos grandes vilões, o excesso de peso, já a acompanha desde quando ela era menor. A tia materna da criança faz uma comparação que choca. Ângela tem o mesmo peso que a parente tinha quando estava com 18 anos. "Acredito que a nossa família tenha predisposição a engordar.
Mas, quando a minha sobrinha fica brava ou nervosa, por exemplo, ela não consegue achar um limite para parar de comer",
ressalta.

No projeto da médica Loraine, a menina moradora do bairro Próspera foi uma das selecionadas. A família garante que a garota está empolgada. Diz para todos que a perguntam sobre a iniciativa que irá ficar mais magrinha. "Ela diz que algumas
coleguinhas não gostam de brincar com ela porque não consegue correr muito. Ela cansa rápido. Outro dia ela me falou: 'Eu vou ficar magrinha para que eu não tire notas baixas em Educação Física, tia. Também para eu poder brincar me- lhor.' E eu disse que tudo ia dar certo."


Inatividade e má alimentação são os vilões

Há tempos, criança rechonchuda era sinônimo de criança saudável. E mesmo assim elas corriam na rua, jogavam bola e se alimentavam melhor. Hoje, as crianças dão passos diários rumo às doenças. Gislene Marinho Costa, diretora da Escola Municipal Jorge da Cunha Carneiro, diz que os alunos não costumam fazer exercícios físicos e passam horas em frente à televisão, computador ou videogame. "Com todos os estudantes, a inatividade é um dos fatores que mais nos preocupa", diz.
Que as crianças têm preferência por doces e salgados e desprezam os azedos e amargos não é novidade. Mas não comer verduras e optar por alimentos com índices calóricos exorbitantes, como bolachas recheadas, salgadinhos e refri- gerantes, contribui para a obesidade infantil. O estudo na escola do bairro Próspera ainda não esta concluído, mas já se sabe que a rotina dos alunos fora do ambiente escolar é exatamente essa.

Saiba mais

Qual é o seu Índice de Massa Corporal (IMC)?
Pegue o peso (em quilos) e divida pelo quadrado da altura (em metros) - peso = IMC
altura²

Se o resultado for de 18,5 a 24,9 = peso normal

de 25 a 29,9 = sobrepeso

igual ou acima de 30 = obesidade

Saiba mais

Números:


- Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a genética, a predisposição, os fatores culturais e étnicos são responsáveis pela obesidade. Aliados a eles, outros dois fatores são responsáveis pelo crescimento acelerado do sobrepeso e da obesidade: o estilo de vida, e aqui entra o sedentarismo, e os hábitos alimentares. Estima-se que mais de 115 milhões de pessoas sofram com problemas relacionados à obesidade nos países em desenvolvimento.

- A obesidade é considerada um fator de risco para os indivíduos desenvolverem artrite, câncer, diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão, problemas gastrointestinais e respiratórios. A diabetes tipo 2, antes observada somente em adultos, já é diagnosticada em crianças.


- A obesidade virou uma epidemia e afeta 10% da população infantil. Uma em cada três crianças brasileiras com idades entre sete e 12 anos está acima do peso.


- Existe diferença entre comedor compulsivo e a pessoa que não consegue parar de comer: a sensação de perda de controle. Entre os obesos, 20% sofrem desse transtorno. Entre os portadores de obesidade grave o número chega a 50%.

De cada cinco comedores compulsivos, um sofre de depressão. Esse índice é 13 vezes maior que o dos outros obesos.


- A diabetes é uma doença do metabolismo. É silenciosa, sem sintomas. Quando eles aparecem é sinal de que o nível de açúcar no sangue já está muito acima do normal. O Brasil tem 5 milhões de diabéticos. Desses, 4 milhões dependem do SUS.


- De 80% a 90% dos adultos acometidos pela forma mais comum de diabetes estão acima do peso. É uma epidemia mundial. No Brasil, atinge 7% da população adulta. Glicemia fora do controle provoca doenças cardiovasculares, insuficiência renal, feridas que não cicatrizam, principalmente nas pernas e pés, e perda de visão.


- A cada ano, 300 mil pessoas morrem de doenças cardiovasculares no Brasil. A causa da metade dessas mortes está relacionada à hipertensão (pressão alta). No Brasil, 45 milhões de pessoas são hipertensas, ou seja, têm a pressão arterial acima de 14 por 9.

- A hipertensão é a causa de 60% dos ataques cardíacos e 80% dos derrames cerebrais. Pouca gente sabe que a pressão alta provoca também a insuficiência renal.


FONTE: Programa Questão de Peso, do Fantástico, com o médico Dráuzio Varella