No que tange sobre a corrida, podemos dizer que ela gera processos de desequilíbrios, pois estamos sempre em movimento, então devemos ter o mínimo de desequilíbrio para estarmos o mais alinhado possível. Muitas vezes este desequilíbrio exacerbado está relacionado pela falta de treinamento no plano transversal, que possui papel fundamental na biomecânica da corrida, principalmente no que se refere ao controle rotacional, ou seja, havendo uma fraqueza neste plano aumentamos as chances de ocorrer uma disfunção de quadril, compensação nos joelhos, tornozelos, enfim, assimetrias nos grupamentos musculares e articulações envolvidas na corrida. 


Notório que esta atividade envolve diversas articulações e musculaturas, podemos citar algumas delas:
Quadril - É uma articulação estável devido aos seus grandes músculos, seus ossos e ligamento fortes. Quando corremos, ocorre uma extensão e flexão de quadril com uma rotação da cintura pélvica, executando maior amplitude de movimento, e havendo uma menor oferta de mobilidade e estabilidade, ocorrerá uma tensão na região, gerando assim um possível desequilíbrio funcional e compensação em outra região. Exemplo joelho e/ou tornozelo. Com um grau de mobilidade ideal, a passada na corrida será de maior amplitude e aproveitamento, evitando esse tipo de compensação. 
Tensor da Fáscia Lata – Muitas vezes deixado de lado na prescrição do treinamento, exerce grande importância no equilíbrio do quadril. A manutenção de uma boa mobilidade e desenvolvimento de seu controle motor pode ajudar a evitar compensações como a rotação externa dinâmica de quadril.
Glúteo - Importantíssimo na corrida, tanto a porção do glúteo médio quanto do glúteo mínimo. A porção média e mínima são utilizadas para permitir a abdução durante a corrida. Um bom trabalho de mobilidade no glúteo mínimo, e principalmente seu fortalecimento, irá dar mais vigor aos músculos do quadril. São estes dois músculos que impedem a pelve de desalinhar, ou seja, quando uma perna está suspensa a outra estará sustentando o peso do corpo, nessa posição o glúteo impedirá a pelve oposta de desalinhar (desabar). Em raros casos pode ocorrer a síndrome de Trendelenburg, quando há um desvio pélvico contralateral no qual ocorre um desalinhamento de pelve e o indivíduo produz seu tronco à frente ou lateralmente. Já na porção do glúteo máximo, ocorre em extensão do joelho, principalmente na passada da corrida.
Joelho – Considerado a maior articulação do corpo, recebe grandes estímulos de estresse devido ao papel de sustentação e locomoção. Logo é fundamental atentarmos aos movimentos de extensão e flexão de joelhos, pois quanto melhor sua mobilidade e estabilidade, maior será a técnica na corrida e menor o impacto gerado nesta articulação, gerando mais tempo útil a ela e melhor performance do aluno/atleta.

                                                                    
Posterior de Coxa – Têm papel importantíssimo na proteção da articulação do joelho, é o famoso “grupamento muscular dos corredores”.  É o grupamento que executa a aceleração. Na corrida, exercícios funcionais que visam força e flexibilidade são PRIMORDIAIS para melhoria de técnica e performance.  Vale chamar atenção para um músculo esquecido nesse grupamento, o poplíteo; ele é fundamental, pois é o único flexor de joelhos (não biarticular), sendo assim vital para estabilidade.
Pés - Propulsão e sustentação, cabe a eles desempenhar este papel. É nos pés que iniciamos a avaliação biomecânica/postural, e com uma avaliação identificando alguma deficiência a chance de compensação em outro local do corpo é certa. Na corrida temos duas fases, na qual os pés são os operadores destes movimentos. Temos a fase de apoio (toque do calcanhar, apoio médio e impulsão), e a fase de oscilação (pé sai do solo e ocorre a passada). A base mecânica dos pés é insubstituível, não adianta ter um tênis de mil reais e não ter uma biomecânica adequada dos pés, logo, é muito importante avaliar e corrigir o aluno com alguns exercícios estando descalço.
Tornozelo - É no tornozelo que vamos absorver muito do impacto da corrida. Ele também tem papel fundamental no deslocamento (passada); por exemplo, um tornozelo muito rígido com baixo grau de mobilidade pode acarretar uma dorsiflexão gerando a conhecida “canelite”. Já um tornozelo com baixíssimo grau de estabilidade, poderá estar mais suscetível a lesões como uma entorse.
Ombros - Os membros superiores também têm papel importante. Na corrida, os braços devem seguir movimentação contrária das pernas, ou seja, perna direita na frente, braço esquerdo acompanha, e vice-versa. Para que esse movimento seja o mais natural possível, os ombros devem efetuar este trabalho, e havendo uma falta de coordenação, poderá gerar tensão nas escápulas e na região cervical, com perigo de causar lesões e a falta de técnica gera um dispêndio maior de energia. Os ombros devem estar relaxados, tronco na frente do quadril e membros inferiores, proporcionando movimento natural e melhor biomecânica.
Core - É um dos pilares biomecânicos na corrida, acoplando os músculos profundos do abdômen e da lombar. É a zona de força, onde nos fornece estabilidade, força, equilíbrio e coordenação. Na corrida, o core fortalecido faz com que nossa postura permaneça por mais tempo correta, com um alinhamento da lombar, deixando ela o mais ereta possível, gerando uma economia de energia durante sua prática, evitando lesões. Em provas longas principalmente onde a fadiga e inevitável, um core fortalecido é um dos diferenciais, pois ele irá sustentar por mais tempo uma postura adequada e simétrica e irá evitar que o corredor perca muita técnica.

 

Damian Souza - Atleta e Educador Físico